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O brincar como linguagem: Winnicott e a clínica com crianças

Por João Paulo Koltermann · · Leitura: 4 min

Uma criança empilha blocos, derruba, reconstrói. Pode parecer só passatempo. Mas, naquele gesto repetido, ela talvez esteja elaborando uma separação, um medo, uma esperança de que o que cai possa, de novo, se reerguer. (Vinheta ilustrativa de personagem fictício.)

Na clínica com crianças, o brincar não é distração enquanto o tratamento “de verdade” não começa. O brincar é o tratamento. Este texto, que compõe a trilha do blog sobre a psicanálise com crianças e adolescentes, se detém sobre essa ideia, central em Donald Winnicott e em Melanie Klein.

Brincar não é o oposto de coisa séria

Melanie Klein, ao desenvolver a técnica do brincar, propôs que o jogo da criança pode ser tomado como equivalente da associação livre do adulto: é por meio dos brinquedos, das cenas e dos personagens que a criança comunica fantasias, angústias e conflitos que ainda não cabem na fala direta. O brinquedo vira palavra.

Winnicott: o brincar como espaço

Winnicott deu a esse ponto um alcance ainda maior. Para ele, o brincar (playing, como processo, e não play, como conteúdo) acontece no que chamou de espaço potencial: uma área intermediária entre o mundo interno e a realidade externa, nem totalmente subjetiva, nem totalmente objetiva. É a mesma região onde, mais cedo, surge o objeto transicional, o paninho ou o ursinho, primeira possessão “não-eu” cujo estatuto, dizia ele, não deve ser questionado: não se pergunta à criança se foi ela quem criou ou encontrou o ursinho, porque o valor está justamente em sustentar esse paradoxo.

Daí a sua definição de psicoterapia: ela ocorre na sobreposição de duas áreas de brincar, a do paciente e a do analista. E o corolário clínico, decisivo: “se o paciente não pode brincar, o trabalho do analista é voltado para levá-lo de um estado em que não é capaz de brincar a um estado em que é”. Antes disso, a interpretação não tem uso. Por isso Winnicott criou recursos como o jogo do rabisco (squiggle), em que analista e criança se revezam completando traços um do outro, recusando transformá-lo em teste.

Por que isso importa

Dizer que “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo pode ser criativo e usar a personalidade integral” tem consequências práticas. Significa que o objetivo da clínica não é ensinar a criança a se comportar, mas devolver-lhe a capacidade de brincar, isto é, de criar, simbolizar e habitar a própria experiência. Uma criança que volta a brincar é, em geral, uma criança que voltou a ter onde elaborar o que sente.

Uma leitura da clínica

Numa leitura que viemos desenvolvendo na clínica, o brincar é a própria operação pela qual a criança transforma o que sente em algo pensável: o medo bruto, a agonia, o excesso ganham forma de cena e, na cena, tornam-se elaboráveis. Por isso o objetivo não é ensinar a brincar “certo”, e sim restaurar a capacidade de transformar a experiência, que é o que adoece quando a criança deixa de poder brincar.

O que este texto não é

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individual. Ele também não transforma o brincar em técnica caseira de tratamento: o valor clínico do brincar depende do enquadre e da escuta de um profissional. Em situações de risco envolvendo uma criança, procure ajuda profissional sem demora.

Perguntas frequentes

Qualquer brincadeira é terapêutica?

Brincar faz bem ao desenvolvimento de modo geral. O que tem valor clínico, porém, é o brincar dentro de um enquadre de tratamento, com a escuta de um analista.

Meu filho só quer brincar na sessão, isso adianta?

Sim. Na clínica com crianças, brincar é a via principal pela qual o conflito comparece e pode ser elaborado.

Preciso interpretar as brincadeiras dele em casa?

Não é recomendável. Em casa, o melhor é oferecer presença e espaço para brincar, deixando a leitura clínica para o setting da análise.

  1. Winnicott, D. W. (1971). O brincar e a realidade. (Edição brasileira: Ubu/Imago.)
  2. Winnicott, D. W. (1971). Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil.
  3. Klein, M. (1932). A psicanálise de crianças. (Edição brasileira: Imago.)
  4. Referências a confirmar na autochecagem; a de Klein carece de base Super vinculada e deve ser checada na fonte.
  5. Em Florianópolis, atendo crianças em análise, tomando o brincar como via de tratamento. Se o seu filho parece não encontrar onde elaborar o que sente, conversar pode ser o primeiro passo.
  6. João Paulo Koltermann, Psicólogo.